quarta-feira, maio 18, 2016

# #Feelings

UMA CARTA PARA AMANHÃ


Montes Claros, 18 de Maio de 2016

Meu nome é Amélia, Maria, Joana, Clara, ou talvez Rita

Sou cada João, Pedro, Mateus, Paulo, enfim, sou as faces e vozes de cada um de vocês que agora me ouvem.

Tristemente escrevo essa carta no pesar intenso de mais uma vez falar sobre o óbvio

Hoje a luta, da qual vocês vestem a camisa, cantam e gritam os mais variados gritos desumanos procurando serem ouvidos, vai além desta causa, deste ponto físico.

Quisera eu dizer que este seria o único aspecto a ser resolvido no emaranhado de questões que envolve a luta severa pelo NÃO aos manicômios.

Meus caros, não sejam hipócritas, não se esquivem da realidade! Essa que vocês engolem tão rapidamente que pulam as etapas da correta digestão, mas que simplesmente ignoram porque, o sistema, não permite que as coisas delonguem tempo para questionamentos.

Estive presente em outras épocas, e me proponho a escrever cartas e endereçá-las, porém poucos ousam abri-las, simplesmente as deixam ali esquecidas num canto qualquer.

Bem, sem vagar, gostaria de dizer que muito admiro o empenho de cada um de vocês que aqui estão presentes, presumo o frenesi das bocas inquietas, os olhares flamejantes, e a sensação boa que é estar junto a outros fitando um só objetivo.

No entanto, se trata de ser mais do que “Só mais um na multidão”. É um povo que veste branco, que carrega bandeiras, que vai as ruas, que gritam em coro, mas que ainda assim atuam direta ou indiretamente na etiqueta posta e imposta pelo sistema.

Sejamos claros, essa luta é uma luta diária! DIGNIDADE, essa é a palavra de ordem, respeitar as diferenças! HUMANIDADE, entender as necessidades do outro, aceita-lo no exercício de SER HUMANO, saber que os olhos enxergam mundos diferentes, que aos ouvidos são acrescentados novos sons, que a boca experimenta se delicia com algo muito além de só doce, ou salgado, amargo, ou azedo, que o corpo se deixa navegar por desconhecidos mares, e que cada ser vê e se move de maneira condizente a esfera em que vive.

Qual é a sua?

REPRESSÃO. O cume quando se fala de DOENÇA MENTAL. Reprimir o desejo de se fazer vivo e útil dentro de um mundo que é exclusivo seu. Privar os doentes mentais do convívio social, tranca-los em gaiolas, roubando lhes a liberdade, é sinônimo de camuflar a covardia vinda lá de cima, afinal é mais fácil controlar um povo, onde sua voz se encontra adormecida.

Analogias? Sim! Extremista? Verão que não

Estamos todos presos a manicômios, qual é o de vocês?

O pensar diferente sobre isso ou aquilo? Amar diferente? Crer diferente? Enxergar diferente?

Ser diferente?

A sua opinião é o seu manicômio, você se prende, ou prendem você! Sim, um ciclo vicioso desde os primórdios da humanidade.

CENSURA! É isso o que acontece quando contradizemos, e quando obedecemos aos nossos desejos!
Você não se aceita, e consequentemente não me aceita também. Somos preconceituosos.

Isso PRÉ-CONCEITO! Não entendemos, não conhecemos, portanto não aceitamos.

Continuaremos em gaiolas, e deixaremos os “loucos” presos também, pelo nosso medo do novo, por puro orgulho e ignorância. POR PURO COMODISMO.

Cansei dessa humanidade melindrosa, cansei das justificativas: Tranca-los irá trazer paz e tranquilidade aos outros, eles são um caos social, não conseguem viver em sociedade, eles não fazem diferença, irão apenas render gastos, gastos e trabalho.

Pois bem, nessa errônea linha de pensamento, fica claro a nossa posição, não só com relação aos doentes mentais, mas a todos e tudo aquilo que não se encaixa perfeitamente ao nosso conceito cru do que é mesmo normal.

Abraçamos todos os dias uma causa, um movimento diferente, mas esquecemos que aqueles passarinhos trancados, são apenas espectadores do teatro que é a nossa existência.

Atenciosamente
Não há remetente.

Texto: Fátima Nayara Santos
Fotos: Katie Crawford

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